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Fome Zero - de zero a cem em quanto tempo ?

Dr. Daniel Magnoni
Médico formado pela UNICAMP
Mestre pela UNIFESP - EPM
Especialista em Nutrologia
Especialista em Clinica Médica
Especialista em Cardiologia
Membro do Conselho de Especialidades da Associação Médica Brasileira
Presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e Nutrição Clínica
Presidente do Congresso Mundial de Nutrição ( Rio de Janeiro - 2003 )

O Projeto FOME ZERO, colocado, logo no início do governo LULA, como uma das ações sociais de impacto e de importância impar, foi maciçamente veiculado na mídia nacional e internacional como atuação consciente e madura de um governo de bases populares e plenamente engajado no rol de necessidades nacionais.
Esbarra, inexoravelmente nesse momento, na armadilha auto fágica proporcionada pelo despreparo do criador em gerir a criatura.
O produto, apressado e acelerado na maturação, envolvido no redemoinho da urgência marqueteira, cresce sem orientação nas atuações de curto prazo, sem projeto de fases seqüenciais de implantação e inicia um processo de orfandade prematura.
O Brasil das muitas fomes, criadas e agravadas pelos desatinos dos programas de inclusão social de governos passados, não pode delegar a divulgação do programa FOME ZERO à projetos que o enfoquem semelhantes mercadologicamente à comparação da aceleração de zero a cem de novos modelo automotivos.
Na morte pela fome, facilmente vislumbrada em telejornais, passa oculta a desnutrição carencial, crônica pelas doenças decorrentes da nulidade do saneamento básico.
A desnutrição hospitalar brasileira, vaga solta sem resolutividade. Alarmantes índices de 48,1% de desnutrição nos pacientes SUS, onerando o custo do tratamento e facilmente minimizada com o efetivo custeio do processo curativo, muitas vezes mais barato que procedimentos de alta complexidade , mas alta penetração na mídia, continua a receber o descaso decisório governamental.
A sociedade cansa do vislumbrar diário da criação de grupos assessores de notáveis, cansa do palanque eleitoral e clama por decisões objetivas, definidas e estruturadas.
Nos processos educacionais, de saúde pública e de envolvimento social, não devemos reinventar a roda.
Cumpre, sob pena de julgamento histórico, apreender as experiências passadas, desvincular-se de interesses pessoais, da vaidade promocional e, muito importante, aglutinar ações coletivas que serão sinérgicas no fim último.
Ações assistencialistas, preocupadas no aplacar da fome diária, surtem efeitos relativos, talvez mais importante no consciente coletivo do que na efetividade programática.
Os programas de inclusão social, de valorização e apoio à educação e permanência escolar, devem ser ampliados, na medida que ocupam o tempo dos jovens, educam e podem fornecer alimentação integral nas necessidades diárias.
A inserção da educação e acompanhamento nutricional no rol de atuações dos profissionais dos programas de saúde, tipo Programa de Saúde da Família, bem como, a presença de nutricionistas nas unidades básicas de saúde deve ser medida obrigatória e, nesse aspecto, possui fácil executabilidade.
Nas concessões de radio e televisão pode-se vincular às benesses dos direitos às obrigações dos programas educativos, observando a sua exibição em horários adequados e de fácil visibilidade.
O projeto FOME ZERO, atrelado ao LULINHA PAZ E AMOR, urge medidas de interesse coletivo irmanadas com o interesse científico, epidemiológico e social, com a necessidade de divulgação e envolvimento de comunidade e com a respeitabilidade das ações passadas e validadas pela implantação.
Nos momentos de crise institucional, reconstrução de conceitos, reprogramação e redirecionamento de prioridades, como alardeiam os arquitetos dos novos dias, fazem-se necessário caminhar em terrenos sólidos, com velocidades mais baixas, mas constantes.
A divulgação é muito importante, o fato deve ser noticia. No entanto, a noticia mal apresentada ou maquiada no embasamento e fundamentabilidade, gera a pesquisa desse fato, gera a desconfiança e por fim, gera o descaso e o desacreditamento. Aborta prematuro, o produto fecundado e bem intencionado.
Ações básicas de saúde, gerenciamento de processos produtivos e escoativos da produção alimentar, educação básica e nutricional e saneamento podem aplacar a FOME ZERO, muito mais pela efetividade, respeitabilidade e compromisso histórico.
O fato divulgado, pelo resultado, validado pela sociedade e fecundado pela seqüência dos acontecimentos será a recompensa daqueles que dedicam à ética e ao compromisso social o norte de suas atuações.
Por fim a FOME ZERO, meta governamental, deve ser trocada pela ALIMENTAÇÃO CEM, sem vínculos espúrios, sem dúvidas nas intenções e sem muito alarde marqueteiro.

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