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Probióticos em pediatria

Jane Oba
Doutora em Pediatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria e
Especialista em Terapia Nutricional pela Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral

Dr. Celso Cukier
Mestre em Cirúrgia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Especialista em Terapia Nutricional pela Sociedade Brasileira de Nutriçào Parenteral e Enteral
Especialista em Nutrologia pela Associaçào Brasileira de Nutrologia
Diretor do IMeN – Instituto de Metabolismo e Nutriçào

Dr. Daniel Magnoni
Mestre pela UNIFESP - EPM
Especialista em Terapia Nutricional pela Sociedade Brasileira de Nutriçào Parenteral Enteral
Especialista em Nutrologia pela Associaçào Brasileira de Nutrologia
Chefe da Seção de Nutriçào Clínica do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
Responsável pelo serviço de Terapia Nutricional do Hospital do Coração
Diretor do IMeN – Instituto de Metabolismo e Nutriçào

 

Definição e importância dos probióticos

O painel de especialistas da “The Food and Agriculture Organization” (FAO, 2002) e da “World Health Organization” (WHO, 2002) definiu os probióticos como “microorganismos vivos que ingeridos em quantidades suficientes promovem efeitos benéficos no hospedeiro”.

A importância da flora intestinal na saúde humana foi reconhecida pela primeira vez no século XIV, quando microbiologistas observaram as diferenças entre a microflora intestinal de indivíduos sadios e doentes. Eles concluíram que várias doenças poderiam ser conseqüentes a alterações da microflora intestinal normal e propuseram que o restabelecimento do equilíbrio microbiológico poderia recuperar e prevenir a saúde do indivíduo.

O termo probiótico se origina do grego “para a vida” e foi proposto por Lilley em 1965. Fuller há mais de 2 décadas definiu probiótico como suplemento alimentar à base de microorganismos vivos, com efeitos benéficos através do melhor equilíbrio intestinal. O conceito não era novo. O primeiro microorganismo utilizado para esse fim foi o Lactobacillus bulgaricus descoberto por Metchnikoff em 1905. Um século após foram identificados e avaliados vários outros microorganismos com extraordinário potencial terapêutico, conhecidos atualmente como probióticos.

Microflora intestinal:

A microflora intestinal do indivíduo adulto é ecossistema complexo capaz de abrigar microorganismos de diferentes espécies, sendo a maioria bactérias. O intestino da criança não é diferente, desde o período neonatal a microflora intestinal é ecossistema composto de bactérias de várias cepas de diferentes gêneros e espécies, embora menos complexo que os adultos (Fanaro, 2003).

Nos indivíduos sadios as bactérias intestinais colonizam principalmente íleo distal e no colon e de um modo geral os microorganismos intestinais podem ser divididos com base no seu poder patogênico ou não patogênico sobre o hospedeiro. O Clostridium por exemplo, produz toxinas, enquanto que os lactobacilus e as bifidobacterias tem efeito benéfico no hospedeiro. Os efeitos benéficos incluem proteção contra infecções entéricas, diminuem o pH por metabolizar carboidratos, suprimem bactérias patogênicas, produzem vitaminas, ativam as funções intestinais e auxiliam na digestão e absorção e estimulam a resposta imunológica (tabela 1).

Tabela 1: Principais funções da Microflora intestinal

Metabólica

 

Fermentação de CH não digeríveis e de muco

Produção de ácidos graxos de cadeia curta, vit. K, absorção de íons

Trófica

 

Controle da proliferação e diferenciação celular

Desenvolvimento da homeostase e do sistema imunológico

Proteção

 

Proteção contra patógenos

Resistência à colonização

Guarner & Malagelada, 2003

As atividades das bactérias intestinais são reguladas e influenciadas por fatores endógenos e exógenos. Os endógenos são a descamação das células intestinais, proteínas do sangue, uréia e vários outros compostos. Os exógenos compreendem os nutrientes da dieta (alimento colônico). A competição de nutrientes e viabilidade de substrato seleciona e regula a microflora intestinal (Chierici, 2003). O microorganismos situados no colon proximal tendem a crescer mais rapidamente, porque eles tem suprimento abundante de nutrientes da dieta. No colon distal a disponibilidade de substrato é muito menor, por esse motivo o crescimento bacteriano é mais lento. Por outro, lado existem bactérias que se aderem firmemente ao epitélio e resistem ao rápido trânsito intestinal, enquanto outras não se aderem e preferem diferentes microhabitat (Fanaro, 2003).

O tecido linfóide intestinal que constituem um dos mais importantes elementos da capacidade imunológica do hospedeiro aprende a reconhecer as diferentes espécies de bactérias, antígenos para subsequente resposta de tolerância imunológica.

Probióticos:

O interesse na utilização dos probióticos com o objetivo de prevenir ou tratar doenças tem sido explorado há muitos anos. Muitos probióticos tem sido proposto como medicamento, desde diarréia a prevenção de câncer. O ser humano vive em um meio ambiente contaminado por bactérias e a simbiose com esses microorganismos parecer ser uma condição de sobrevivência.

Tabela 2: Cepas mais utilizadas como probióticas

Lactobacillus

Bifidobacterium

Outros

L. acidophilus

B. bifidum

Streptococcus thermophilus

L. rhamnosus

B. longum

Escherichia coli

L. gasseri

B. breve

Clostridium butyricum

L. reuteri

B. infantis

Enterococcus faecalis

L. bulgaricus

B. lactis

E. faecium

L. plantarum

B. adolescentis

Fungos

L. Johnsonii

 

Saccharomyces boulardii

L. casei

 

VSL#3

L. lactis

 

 

Heyman & Ménard, 2002

As bifidobacterias e os bacterióides são microorganismos que podem rapidamente metabolizar substâncias produzidas pelo hospedeiro. As bifidobacterias, eubacterias, lactobacillus crescem em meio que contém carboidrato (Chierici, 2003). A fermentação intestinal dos carboidratos é um processo complexo e depende da interação de diferentes enzimas de diferentes bactérias. Os produtos finais são gases ( hidrogênio, dióxido de carbono e metano), ácidos graxos de cadeias curta, ácidos graxos ramificados e ácidos orgânicos. O lactato, piruvato, succinato e etanol podem posteriormente ser metabolizados a ácidos graxos de cadeia curta (Chierici, 2003).

O desenvolvimento da microflora intestinal do indivíduo pode ser dividido em três estágios principais:

•  Infância: A microflora é relativamente simples, instável e muito influenciada pela nutrição.

•  Adultos: A microflora é mais complexa, mais estável e dificilmente muda.

•  Idosos: Por razões ainda não esclarecidas ocorrem algumas mudanças e a microflora novamente se torna menos complexa e menos estável

Abordaremos o primeiro estágio do desenvolvimento da microflora intestinal.

A compreensão do ecossistema intestinal da criança, sua diversidade e a sucessão de cepas após o início da colonização é quase que exclusivamente baseada na análise de amostras de fezes, que geralmente são representativas da microflora em termos de composição e função (Fanaro, 2003). A análise dos produtos metabólicos dessas bactérias e o desenvolvimento de novas técnicas de biologia molecular nos últimos 10 anos permitiram conhecer melhor a microflora intestinal da criança e sua importância biológica, mas existe ainda um número expressivo de microorganismos que não são cultivados por métodos convencionais e não se tem conhecimento sobre a sua função na saúde humana.

Desenvolvimento da microflora normal do recém-nascido:

Antes do nascimento o intestino do recém-nascido (RN) é estéril, banhado apenas pelo líquido amniótico. A colonização bacteriana intestinal inicia ao nascimento, quando o RN é exposto às diferentes espécies de microorganismos, incluem o canal vaginal, a região perineal da mãe e o contato com outras bactérias do meio ambiente (Vanderhoof, 2004). Entretanto a microflora que vai se estabelecer no intestino do RN não é aquela adquirida ao nascimento (Adlerberth, 1999 Nestlé pg 63).

Após o nascimento e exposição ao meio ambiente, o tipo de alimentação é o fator que mais influencia a colonização e o equilíbrio entre as bactérias benéficas e patogênicas. No primeiro dia de vida as primeiras bactérias que colonizam o intestino do RN são enterobactérias aeróbias e anaeróbias facultativas, que aproveitam a pequena quantidade de oxigênio proveniente da sucção ( Bifidobacterium, Lactobacillus, E. coli e Enterobacterium ), (Itoh, 1997 – p 18 Yakult), cujo número atinge 10 9 UFC/g de fezes Fanaro 2003. À medida que essas bactérias proliferam elas depletam o oxigênio da luz intestinal e o meio se torna mais adequado para o crescimento das bactérias anaeróbias (bifidobactérias, bacterióides e clostrídium), e dessa forma se estabelece a “microflora normal” (Itoh, 1997 - Yakult). Enquanto que as Bifidobacterium aparecem no 3 dia de vida nos RN que se alimentam de leite humano e o grupo de bactérias anteriores diminui. Do quarto ao sétimo dia de vida as Bifidobacterium são predominantes, quase 100% da microflora e atingem 10 10 a 10 11 UFC/grama de fezes. A partir do 7 dia de vida a microflora intestinal é praticamente estável e à medida que progride o desmame a microflora intestinal do RN permite o crescimento de cocos Gram negativos, semelhante à microflora dos adultos (Mitsuoka, 1997

Durante o desmame, quando é introduzido alimentos sólidos ocorre uma readaptação da microflora e começa predominar as bactérias anaeróbias. No final do primeiro ano de vida o número de bifidobacterium se assemelham em ambos os tipos de aleitamento e entre os 2 a 3 anos a microflora intestinal se assemelha a dos adultos em número e composição (Vanderhood & Young, 2004).

Os RN que nascem de parto cesáreo geralmente tem a colonização intestinal retardada, ampla exposição à flora ambiental, dessa forma adquirem mais bactérias anaeróbias e bacterióides, diferente dos nascidos por via vaginal (Vanderhoof & Young, 2004). Essas diferenças podem persistir pelo menos durante os seis meses de vida (Salminen SJ, 2002).

Características da microflora intestinal durante a infância e suas implicações na saúde da criança:

Algumas propriedades dos microorganismos intestinais mudam com a idade. Por exemplo, a idade influencia a capacidade de aderência das bifidobactérias na mucosa intestinal. No período neonatal elas se aderem firmemente à mucosa, enquanto que na velhice essa propriedade é enfraquecida e o seu número total diminui drasticamente. O número de colônias bifidobactérias também diminiui com a idade (Salminen, 2002).

inserir figura p 2 Neocate .

As bifidobactérias tem sido exaustivamente estudadas devido ao seu elevado número no intestino dos RN. Através de técnicas de biologia molecular foi possível identificar genes específicos do Bifidobacterium longum que expressam a habilidade funcional em utilizar os oligossacarídeos, particularmente aqueles encontrados no leite materno. Provavelmente o código genético das Bifidobacterium longum foi adaptado para capacitá-las em colonizar as porções distais do intestino dos RN e interagir com o tecido linfóide. (Salminen, SJ, 2002).

Assim como a microflora intestinal é diferente entre os RN e idosos ela é diferente entre adultos jovens e adultos. Essa variação parece estar associada com a dieta e com a motilidade intestinal (Itoh1997). Nos idosos há aumento das bactérias putrefativas, resultando em diminuição das Bifidobacterium, por diminuição na motilidade gástrica. Com o envelhecimento as paredes intestinais se adelgaçam e consequentemente diminuiu a propulsão do alimento, estagnação do conteúdo intestinal (Benno Y, p. 25,; Itoh, p 18 1997 e Mitsuoka p 2 – livro da Yakult e inseri fig 4 p.5).

Importância do estabelecimento da microflora:

O estabelecimento da microflora normal no RN é um processo progressivo, lento, que pode durar alguns anos e não é ao acaso, depende do equilíbrio das bactérias benéficas e as não benéficas. Outros fatores além do tipo de aleitamento influenciam esse processo como a introdução precoce da nutrição, o grau de contaminação, higiene ambiental, a herança genética e a utilização de antibióticos orais. O estabelecimento da microflora normal no período neonatal tem importância crucial no desenvolvimento do tecido linfóide intestinal, no sistema imunológico e na função de barreira do intestino. Por sua vez, o bom desenvolvimento do sistema imunológico terá consequências nos processo infecciosos agudos e crônicos e nos processos alérgicos (Yamashiro et al, 2004).

A microflora do RN interage com o desenvolvimento do sistema imunológico que por sua vez, “aprende” a reconhecer que essas bactérias são hospedeiros desejáveis do trato digestório) e dessa forma contribui para a saúde geral (Vanderhoof, 2004, Itoh, 1997, Sakata, 2005). Muitos microorganismos realizam múltiplas funções e seus efeitos na modulação imunológica específica, não específica e na barreira intestinal contribuem para a saúde desde os primeiros anos de vida até a velhice (Salminen, proceeding of an international symposium).

Uma vez estabelecida, a microflora intestinal é relativamente estável e dificilmente muda. A E coli é a enterobactéria predominante que coloniza a criança após a expansão das bifidobactérias. As espécies de bacterióides são as mais frequentes no colon, mas outras estão presentes como os lactobacilus, estafilococos, enterobactérias, estreptococos e clostridium.

Fatores que alteram a microflora:

Fatores extrínsecos como a dieta da mãe ou o consumo de probióticos ainda na gestação, tipo de nascimento (parto vaginal ou cesáreo), prematuridade, alimentação (leite humano ou artificial) influenciam o processo de colonização e o tipo de organismos que se estabelece (Vaarala, 2003). e fatores intrínsecos como saúde do RN, estado imunológico e tempo de trânsito intestinal.

Antes do estabelecimento definitivo das bactérias anaeróbias, bactérias potencialmente patogênicas podem alcançar um número elevado no intestino do RN e podem se disseminar para locais extra-intestinal e desenvolver infecções como sepses, meningites (Adlerberth, 1997).

A microflora intestinal pode se alterar por vários fatores como o tipo de nascimento, doenças agudas ou crônicas, ingestão de medicamentos (antibióticos), mudança alimentar (leite artificial), estresse, interação com as bactérias intestinais ou com os produtos por elas metabolizados. Padrões alterados da microflora também podem ser observados em crianças com alteração peristalse, câncer, ressecções amplas do intestino, doenças hepáticas, anemia perniciosa, imunodeficiências e naquelas submetidas a radioterapia ( Mitsuoka, 1997).

Os RN doentes, os prematuros, os baixo peso ao nascer, os que permanecem em unidades de terapia intensiva adquirem uma microflora intestinal diferente dos RN normais. Essas alterações também podem estar relacionadas com o tipo de nascimento, pois a maioria RN prematuros nascem por parto cesáreo. A colonização intestinal por clostridium, escherichia, klebsiella, salmonella, shigella, campylobacter, pseudomonas, streptococcus, enterococcus, Staphilococcus aureus aumentam os riscos de enterite necrozante, que é um dos mais grave distúrbios intestinais e pode evoluir com sepse e necrose intestinal. O tratamento com antibióticos também tem importante efeito na microflora intestinal no período neonatal. O número de colônias de E Coli é reduzido e frequentemente substituidas por Klebsiella, Enterobacter, Citrobacter ou pseudomonas. Também é observado um aumento no número de clostridium e muitas bactérias anaeróbias podem desaparecer. Esses distúrbios na microflora do RN podem persistir por longo período após a remoção do antibiótico.

O tipo de aleitamento no período neonatal é um importante determinante da composição de microorganismos (tabela 3).

Tabela 3 : Distribuição das espécies de Bifidobacterium em grupos de RN com 30 dias de vida, de acordo com o tipo de aleitamento (Sakata, 2005)

 

Aleitamento

Bifidobacterium em %

B adolescentis

B. bifidum

B. breve

B.catenulatum

B. longum infantis

B longum Longum

Leite materno

3

9

26

9

32

55

Misto

19

7

15

19

30

65

Leite artificial

18

18

36

18

45

81

 

O leite materno cria um ambiente favorável para o crescimento das espécies de bifidobacterium ( B. bifidum, B. longum infantis, B. breve ) típicas dos lactentes e raramente são encontradas em adultos. Os RN que são amamentados com leite artificial tem um ecossistema complexo distribuidos em bactérias anaeróbias, anaeróbias facultativas, mas sem o predomínio bifidobactérias. Dessas últimas as espécies mais encontradas são as B adolescentis, B longum típicas dos adolescentes e adultos (Chierici R et al, 2003).

Se a doença causa uma resposta inflamatória e pode mudar a microflora intestinal, uma microflora aberrante na infância pode causar resposta inflamatória e doença? 

Existem duas formas de modificar uma microflora anormal. A primeira é fornecer probióticos como suplemento, utilizando os probióticos que contém microorganismos vivos e que influenciam a saúde de forma benéfica. A segunda é utilizar suplemento com prebióticos, que contém carboidratos não absorvidos que altermam o equilíbrio dos microorganismos no trato digestório de forma benéfica.

A integridade trato gastrointestinal é o resultado do delicado equilíbrio entre as citocinas inflamatória (interleucina 1, 6 e 8 e o fator de necrose tumoral) e anti-inflamatórias (interleucina 1RA, 4 e 10). O potencial benefício de se modificar a composição de uma microflora anormal pode ser uma nova forma de abordar tratar e prevenir os processo inflamatórios no período neonatal e na infância (Vanderhoof, 2004).

Terapia com Probióticos:

A importância dos probióticos na saúde do indivíduo, desde o período neonatal até a vida adulta tem sido muito discutida na literatura. Os estudos que documentam os benefícios dos probióticos em pediatria tem focalizado mais a prevenção e o tratamento infecções gastrointestinais. Mais recentemente tem sido descritos os mecanismos de ação dos probióticos nas doenças alérgicas e sua interação com o intestino como orgão imunológico.

Doenças atópicas:

O intestino é o maior sistema imunológico nos humanos. O sucesso do desenvolvimento do sistema imunológico da mucosa intestinal requer estímulos constante das bactérias intestinais. Da mesma forma que o sistema imunológico intestinal estimula as defesas contra as infecções ele induz a tolerância aos alimentos e às bactérias encontradas na luz intestinal. Os mecanismos moleculares da indução da tolerância oral são pouco conhecidos, sabe-se que ela pode ser modificada pelas características genéticas do hospedeiro, do meio ambiente, pela utilização de antibióticos e dos antígenos administrados.

Das doenças alérgicas as alergias alimentares são as mais frequentes nos lactentes e crianças. A alergia alimentar geralmente tem resolução espontânea a partir dos 3 anos de idade, reforçando a hipótese que o desenvolvimento do sistema imunológico com a idade favorece a tolerância oral. No período intra uterino e neonatal predominam os linfócitos Th2. Seu número aumentado intestino é relacionado com o aumento da produção de anticorpos IgE contra vários antígenos ambientais e com desenvolvimento de alergia. Uma microflora intestinal normal parece ser capaz de estimular a diferenciação desse linfócitos em Th1 e Th3 e promover um equilíbrio capaz de reduzir a tendência a reações alérgicas. Os distúrbios alérgicos são consequentes ao desequilíbrio dos linfócitos Th1 e Th2. A exposição às infecções resultam no estímulo dos linfócitos Th1 e liberação de citocinas por eles produzidas ( Heyman, 2002)

Björkstén et al estudaram crianças alérgicas e verificaram que o grupo que desenvolvia doenças alérgicas tinham baixo número de bactérias nas fezes no 5º. dia de vida, quando comparadas com as não alérgicas. No mesmo estudo eles constataram diminuição do número de bifidobactérias nos lactentes alérgicos em relação aos sadio, durante os primeiros doze meses de vida (figura) e concluíram que a alterações na colonização da microflora intestinal no período neonatal poderia estar relacionada com doenças alérgicas.

Outros autores, que também constaram diminuição do número de bifidobacterium em crianças alérgicas em relação a crianças normais, concluíram que a redução parece preceder o desenvolvimento das atopias ( Kalliomäki et al, 2001). Nos lactentes não alérgicos e sadios predominam as B bifidum, B infantis e B breve , características das crianças, enquanto que nos lactentes alérgicos predominam os B adolescentis , semelhantes às crianças maiores ( Ouwehand et al, 2001).

Durante a inflamação intestinal ocorre um desequilíbrio entre os microorganismos e as bactérias intestinais migram através da camada de muco, aumentando a permeabilidade às moléculas maiores. Muitos pesquisadores vem tentando descobrir os efeitos dos probióticos na modulação do sistema imunológico intestinal, com o objetivo de reduzir a gravidade das doenças alérgicas nas crianças. Os mecanismos de estímulo dos probióticos na resposta imunológica do hospedeiro são pouco conhecidos, mas muito promissores. A utilização de probióticos, especialmente os lactobacillus e os bifidobacterium no tratamento das doenças alérgicas é baseada nos mecanismos de barreira da mucosa intestinal e no desequilíbrio de Th1 e Th2 a vários antígenos (Vaarala, 2003). As citocinas dos linfócitos Th2 (IL-4, IL-5, IL-10 e IL-13) predominam nas respostas alérgicas e são responsáveis pela produção de anticorpos IgE e ativação de eosinófilos (Heyman & Menard, 2002). Os lactobacillus inibem a produção das citocinas Th2 e dessa forma controlam a resposta alérgica.

Diarréia:

As diarréias agudas são as principais causas de infecções na criança de países subdesenvolvidos. No Brasil, as diarréias são responsáveis por 25% das internações hospitalares e tem elevada taxa de mortalidade (Ribeiro, 2000).

As principais evidências dos efeitos benéficos dos probióticos na diarréia aguda, especialmente por rotavírus são citados por vários autores (Souza et al, 2003; Huang et al, 2002; Pochapin, 2000; Saavedra, 2000). Os probióticos também tem efeitos benéficos nas diarréias por outras causas, como as pós- antibioticoterapia, enterocolite necrosante, infecções no RN muito baixo peso ao nascer e nas doenças inflamatórias intestinais.

Os principais mecanismos de ação são: 1) Competição com o enteropatógeno pelo sítio de ligação do receptor 2) Aumento da função de barreira do intestino por adesão à mucosa intestinal e portanto previne a adesão e invasão do vírus. 3) Regulação da resposta inflamatória através da regulação de citocinas pró e anti-inflamatórias 3) Regulação da secreção e da motilidade intestinal para remover substâncias tóxicas 4) Os probióticos produzem substâncias que inativam as partículas virais (Reid et al, 2003). Dessa forma os probióticos promovem a estabilização da microflora e o processo de recolonização do intestino

No estudo multicêntrico e randomizado da ESPGHAN (Guandalini, 2000) foi administrado Lactobacillus GG na solução de hidratação oral em crianças com idade entre 1 mês a 3 anos com diarréia aguda. Os resultados mostraram que o probiótico no soro de hidratação foi seguro, diminuiu a duração da diarréia, a persistência e o tempo de permanência no hospital. Outro estudo com lactentes desnutridos no Peru, que receberam probióticos durante 15 meses, mostrou redução na freqüência de diarréia aguda nos lactentes que não estavam em aleitamento natural (Oberhelman et al, 1999).

L. rhamnosus GG combinado com antibióticos reduziu em 3 semanas a recorrência de diarréia por C. difficile e melhorou os sintomas de dor abdominal (Pochapin, 2000).

Doenças inflamatórias intestinais:

Compreendem a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn e são caracterizadas por evacuações sanguinolentas, com muco, com períodos de melhora e exacerbação espontaneas. Os fatores mais relantes na perpetuação do processo inflamatório são herança genética, a contaminação ambiental, mudança de hábitos alimentares e mais recentemente alteração da microflora intestinal. Apesar dos extensos estudos os mecanismos que desencadeiam a sequência dos eventos inflamatórios ainda não foram totalmente esclarecidos. Algumas pesquisas concluíram que os portadores dessas doenças tem perda de tolerância e uma agressiva resposta imunológica a uma microflora alterada (Shultz, 2000; Bourruel et al. 2002; Nobaek et al, 2000). Se essas conclusões forem confirmadas as doenças inflamatórias intestinais são patologias que poderiam apresentar melhor resposta com o uso de probióticos. Borruel et al (2000) encontrou diminuição na produção de citocinas anti-inflamatórias nos segmentos de íleo incubados com L casei e L bulgaricus . Gupta et al (2000) concluiu que as crianças que receberam Lactobacillus GG apresentaram melhora no índice de atividade da doença.

Como a maioria dos estudos são conduzidos com pacientes adultos é necessário compreender melhor o efeito dos probióticos nos mediadores da resposta inflamatória das crianças, especialmente o fator de necrose tumoral- a e se a fisiopatologia do processo inflamatório é diferenre na criança.

Intolerância à lactose:

Algumas cepas como L. acidophilus, S. thermophilus, L. bulgarius ajudam produzir lactase e portanto seu uso podem diminuir o trânsito oro-cecal na crianças que apresentam intolerância à lactose (Roberfroid et al, 2000).

Constipação:

Ouwehand el al (2002) concluíram melhora na frequência de evacuações em indivíduos constipados que receberam L rhamnosus e P freudenreichii por 4 semanas quando comparados com os que receberam suco ou suco e L reuteri.

Principais veículos:

Muitos probióticos são estáveis somente por períodos limitados, quando armazenados em geladeiras. Os principais veículos são os iogurtes, leites fermentados e fórmula lácteas infantis. Os que são comercializados em cápsulas ou em pó, são mais estáveis e podem ser armazenados em prateleiras e diluidos em líquidos. Quando os probióticos são expostos ao calor ou oxigênio pode ocorrer destruição das bactérias. Novas técnicas de microencapsulação estão sendo desenvolvidas para preservar a sobrevivência dos microorganismos ao atravessar o estômago e duodeno e os benefícios são promissores.

Conclusões:

A FAO e WHO declaram que existem evidências científicas que os probióticos tragam benefícios à saúde e que cepas específicas sejam seguras para o homem. Esse reconhecimento oferece aos probióticos amplas perspectivas de pesquisas.

Para exercer efeitos benéficos os probióticos devem ter algumas propriedades, entre elas ter especificidade e compatibilidade com o hospedeiro, interagir com outras espécies, reproduzir-se rapidamente e produzir substâncias anti-microbianas. Como os probióticos devem ser ingeridos ainda vivos para promover colonização duradoura no intestino, onde se multiplicam e sobrevivem. eles precisam resistir ao poder bactericida do suco gástrico e bile e ao tempo entre a fabricação e ingestão. Essas duas últimas propriedades desqualificam muitas cepas comumente utilizadas em produtos fermentados.

A variedade de microorganismos utilizados, as diferentes doses e as diferentes populações estudadas confundem as recomendações. Entre os bons resultados estão os LGG e os bifidobacterium para o tratamento e prevenção das diarréias. Os resultados com Saccharomyces boulardii também tem sido bons. Assim os probióticos devem ser cuidadosamente estudados antes de uma ampla recomendação. Os probióticos de um modo geral são muito seguros, porque eles comercializados há muitos anos como suplemento alimentar ou alimento fermentado e não tem efeitos colaterais no metabolismo, além de conter microorganismos que normalmente habitam o intestino humano (Young & Huffman, 2003). É importante uma avaliação cuidadosa dos efeitos colaterais em RN prematuros ou crianças imunodeficientes. Finalmente, a redução da hospitalização e relação custo-benefício deve ser cuidadosamente avaliada antes de acrescentá-los na dieta diária, para fins profiláticos ou terapêuticos.

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